Você acorda de manhã cedo e, enquanto prepara o café, sintoniza sua rádioweb preferida para ouvir um pouco de música ou o noticiário local.
Pouco depois, abre sua caixa de e-mail, deleta uma dúzia de spams, descobre que seu chefe ficou insatisfeito com seu último relatório, confere as fotos da viagem ao Chile, enviadas por sua tia, acompanha o andamento de seu pedido na Saraiva, renova o prazo dos livros emprestados da biblioteca, espia um ou dois portais de notícia para ver o que aconteceu no mundo e em sua comunidade nas últimas 12 horas, pesquisa uma solução para questões domésticas usando o Google e aproveita para escolher uma receita de salmão para surpreender o namorado no fim de semana, num badalado blog de culinária.
Tantas atividades e não se passaram nem cinco minutos. Agora, é a vez da diversão: no Orkut (ou no Facebook), confere scraps de amigos e perde algum tempo cultivando coisas imaginárias em aplicativos como Fazendinha Feliz. Surpreende-se, momentaneamente, por ver-se “amiga” de 400 outras pessoas, mas conhecer o sobrenome de apenas umas dez delas.
Clica no ícone do passarinho azul e confere a enxurrada de pensamentos de seus seguidos, alguns úteis, muitos absurdos, uma porção deles até inconvenientes.
Você de repente começa a perceber que sobra muito pouco o que fazer fora de seu universo virtual – afinal de contas, serviços bancários, pagamento de contas, aluguel de filmes, compras no supermercado, contato com amigos – tudo pode ser feito virtualmente. Até seu namoro é fruto da cibercultura, romance que vingou após brotar numa dessas salas de bate-papo da vida.
Mais do que uma relação amorosa, a internet está alçando o status de “companheira para todas as horas” para muitos de nós. Estaríamos, no entanto, nos tornando submissos à máquina? É o que argumenta Jean Baudrillard, que também aborda um ponto nevrálgico na relação entre homens e internet: não há mais distinção entre o público e o privado.
Se há pouco mais de dez anos as pessoas nutriam certos pudores quanto à vida pessoal, hoje esta barreira definitivamente foi ao chão. Já não há mais nada de mal em expor as fotos de sua última noitada no bar da esquina com os amigos; de sua performance sensual na praia, a bordo de trajes sumários; ou ainda as primeiras imagens de seu filhote recém-nascido, nos braços de uma mamãe inchada e mal-humorada, pós-parto. Tudo é válido e tudo é “lindo”.
De acordo com a pesquisadora Giovana Ersching, “(...) habitamos um território novo, em que a noção de propriedade, autoria, esfera pública e privada, veracidade, passou por reconfigurações, num local que não é mais local, e sim global, e que por isso faz com que todos sejam do mundo e o mundo seja de ninguém”.
A questão é que não existe privacidade na internet – pelo menos não absoluta. Como disse Carlos Castilho em seu post no blog Código Aberto (Observatório da Imprensa), “temos que (...) aprender a viver cercados por paredes de vidro”. Para ele, ao invés de tentarmos criar muros para proteger nosso individualismo (para quem faz questão deste princípio, outrora tão cobiçado), devemos sim promover a individualidade. “Em vez de encaixotar a privacidade, deveríamos estimular a transparência como forma de garantir a ampliação na circulação de informações, premissa básica para a produção de conhecimentos essenciais na economia digital da inovação”.
A pesquisadora Lúcia Santaella tem uma visão um pouco mais otimista deste “império” da máquina ao qual todos nós nos submetemos de livre e espontânea vontade. “Não há por que desenvolver medos apocalípticos (...). As máquinas vão ficar cada vez mais parecidas com o ser humano, e não o contrário”.
É possível sobrevivermos, enfim. Agora faça um favor a si mesmo: saia da frente do computador e presenteie-se com cinco minutos de pura contemplação ociosa debruçado na janela.
Ótima reflexão Cintia. Tem gente que leva tão a sério essa cultura da internet, essa 'rotina' de abrir e-mail, checar orkut, postar no blog, 'twittar' algo interessante, que muitos estudiosos já levantam a seguinte questão: existem viciados em internet? Vou dividir aqui a matéria da Época que fala a respeito:
ResponderExcluirhttp://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI143900-15224,00-ESTOU+VICIADO.html
Tem gente que não vê problemas em expor toda a sua vida na internet. Penso que bom senso é bem-vindo sempre. Vale a pena se expor tanto assim? Para quê? Para quem? Para 400 amigos dos quais você conhece apenas 10? Quantos daqueles te cumprimentam ao passar na rua? Talvez a internet crie irrealidades. Talvez seja um meio de fuga. De viver algo que queríamos, mas não conseguimos. Acho que então vale mesmo a pena sair mais que cinco minutos para contemplar a janela. É mais real.
A internet tem se tornado uma ferramenta praticamente indispensável na nossa profissão. Os exemplos citados no início mostram claramente que a internet está nos deixando reféns dela. Portanto é necessário saber utilizar a ferramente de maneira coerente. Seu post foi bem distribuído no decorrer do tema proposto.
ResponderExcluirA internet é algo irreversível, mas os relacionamentos e atividades, acredito, não ficaram restritos neste mundo. Para exemplificar esta ideia, basta algo bem recente: o sujeito pode até disponibilizar a sua lista de figurinhas do Álbum Copa do Mundo 2010 em algum lugar. Mas para consumar a troca, é preciso ir na praça. Tomara que o Horácio libere mesmo às 11h30.
ResponderExcluir